A escuta da racialidade na clínica psicanalítica
A psicanálise brasileira tem uma dívida com a racialidade. Durante décadas, a raça foi tratada como um "tema" externo à clínica — quando muito, um conteúdo a ser interpretado. Mas a racialidade não é conteúdo: é estruturante do sujeito.
A transferência — conceito central da clínica — é atravessada pela raça. Um analista branco e um analisando negro estabelecem uma relação transferencial que não pode ignorar as marcas da racialização. O mesmo vale para outras configurações.
Neusa Santos Souza, em "Tornar-se Negro", oferece uma das contribuições mais importantes para pensar a articulação entre psicanálise e racialidade no Brasil. Sua tese — de que a ascensão social do negro implica um custo psíquico — dialoga diretamente com a clínica.
Escutar a racialidade na clínica não significa transformar a análise em ativismo. Significa reconhecer que o inconsciente é racializado — e que uma escuta que ignora isso é uma escuta que recalca.
Referências
- SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se Negro. Rio de Janeiro: Graal, 1983.
- KON, Noemi Moritz; SILVA, Maria Lúcia; ABUD, Cristiane Curi (Orgs.). O Racismo e o Negro no Brasil: questões para a psicanálise. São Paulo: Perspectiva, 2017.
