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Afeto22 de junho de 2026

A Amizade em Tempos de Pressa

Vivemos em um tempo em que a correria deixou de ser um estado passageiro para se tornar o novo normal. Corremos para o trabalho, para organizar a casa, para cumprir compromissos, para resolver problemas e, principalmente, para tentar alcançar um futuro que nunca parece chegar.

Marcar um café com uma amiga virou um desafio logístico. As agendas estão sempre lotadas, os dias ocupados, os horários incompatíveis. E quando não é a falta de tempo, é a falta de prioridade. Como se o encontro com o outro fosse um luxo que só pode acontecer depois que todas as tarefas estiverem concluídas, mas elas nunca estão.

Até mesmo as conversas pelo WhatsApp, que poderiam encurtar distâncias, parecem sofrer da mesma lógica. As mensagens se acumulam, as respostas ficam para depois e, aos poucos, a presença vai sendo substituída por reações rápidas, emojis e silêncios prolongados. Estamos conectados o tempo todo, mas cada vez menos disponíveis.

Talvez o mais curioso seja que a falta de tempo não afeta apenas os encontros. Ela afeta também nossa capacidade de escutar. Muitas vezes já não conseguimos ouvir verdadeiramente a alegria ou a dor de alguém sem imediatamente voltarmos o assunto para nós mesmos. O relato do outro vira uma competição involuntária. Como se cada experiência precisasse ser respondida com outra experiência, e não acolhida em sua singularidade.

Parece que estamos perdendo a capacidade de sustentar a presença.

E talvez isso aconteça porque estamos, antes de tudo, ausentes de nossas próprias vidas. Fazemos as coisas por obrigação, por preocupação, por necessidade. Vivemos projetados para o amanhã, tentando controlar o que ainda não aconteceu, enquanto o presente passa despercebido.

Nesse cenário, as conversas se tornam cada vez mais superficiais. Falamos muito, mas compartilhamos pouco. Trocamos informações, mas raramente construímos intimidade. E, quanto mais conectados estamos, mais solitários parecemos nos sentir.

Por que estamos vivendo assim?

Será que a vida adulta exige esse afastamento? Será que a produtividade tomou o lugar dos afetos? Será que desaprendemos a cultivar vínculos? Ou será que estamos cercados de pessoas que já não compartilham dos mesmos desejos de presença que nós?

Talvez a resposta não esteja apenas nos círculos que frequentamos, mas também na forma como a cultura contemporânea nos ensina a viver. Uma cultura que valoriza a performance mais do que a presença, a ocupação mais do que o encontro, o fazer mais do que o estar.

Mas as amizades não sobrevivem apenas de lembranças ou de boas intenções. Elas precisam de tempo, disponibilidade e, sobretudo, de interesse genuíno pelo outro.

Porque, no fim das contas, ser amigo não é apenas estar por perto. É estar presente.

E talvez o verdadeiro ato de resistência dos nossos tempos seja justamente esse: desacelerar o suficiente para ouvir, para encontrar, para permanecer e para lembrar que nenhuma agenda cheia é capaz de substituir a experiência de ser visto e acolhido por alguém.

Tábata Yokomiso

Ref Literárias

Tudo Sobre o Amor — Bell Hooks / Amor Líquido — Zygmunt Bauman

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