Um dia de Trabalho: Alienação e Desejo
"Ela queria dançar, mas os sapatos a fizeram dançar sem parar."
Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que Correm com os Lobos
Um belo dia, enquanto lia Mulheres que correm com os lobos, em especial o conto Os Sapatinhos Vermelhos, buscava ferramentas para compreender uma paciente. E, como sempre acontece quando lemos algo pela segunda ou terceira vez, percebi que o livro não era mais o mesmo e talvez eu também não. Eu li e ele me leu de volta.
Minha rotina, em essência, é previsível. Acordo, leio, estudo, trabalho. Almoço, tenho uma pausa pro café, encerro o expediente e às vezes uma hora mais tarde do que o previsto. Não há grandes acontecimentos, mas há constância. Dedicação. Um cansaço que não é físico, mas um esgotamento que parece vir de dentro, do excesso de repetições. Ao fim do dia, atendo alguns pacientes e depois busco relaxar lendo mais um pouco, vendo um filme ou estudando, alguma coisa que meu cérebro possa viajar e sair da realidade.
Com o tempo, comecei a perceber que o que chamava de descanso era, na verdade, uma fuga. Uma busca silenciosa pela criação. Criar, para mim, era a chance de pensar fora do comum, de escapar das engrenagens da rotina. Ler contos me levava a esse lugar de fantasia, pintar, fazer cerâmica fria, escrever ensaios literários, um território misterioso entre o consciente e o inconsciente, onde a imaginação tem vida e cor. Era ali que eu me sentia viva.
Voltar ao trabalho, depois disso, era como retornar de um sonho: eu me sentia renovada, mas logo o ciclo se repetia. Até que um dia, numa reunião importante, fui reconhecida pelo meu bom desempenho e pelas conquistas do meu time. Senti uma alegria sincera, uma emoção inesperada quase que infantil, como uma criança recebe parabéns por ter tirado 10 na prova.
Mas logo depois da reunião, encontrei na famosa "dm" três novas demandas. Fui almoçar refletindo sobre o elogio. A gratidão inicial deu lugar a uma estranha frustração. E me fiz a seguinte pergunta: Após o reconhecimento… vem o quê? Eu nunca havia chegado a essa parte. Mas só conseguia pensar nas 3 demandas a mais que me aguardavam no famoso "backlog".
Percebi que o elogio, na verdade, era mais um combustível para a engrenagem continuar girando. E o ciclo recomeça, agora com maiores expectativas.
Pensei então em Os Sapatinhos Vermelhos. No conto, a jovem é seduzida pelo brilho dos sapatos, uma promessa de liberdade e alegria, mas termina escrava da dança que eles impõem. Incapaz de parar, ela perde o controle sobre si mesma.
A metáfora se fez clara: nós, trabalhadoras contemporâneas, calçamos nossos "sapatinhos vermelhos" quando aceitamos o ritmo incessante da produtividade. Dançamos movidos por elogios, metas e reconhecimento. Somos soldados do capitalismo, exaustos e feridos, tentando encontrar sentido nos elogios que não preenchem o vazio. E mesmo ferido, estamos neste ambiente tentando amenizar a ferida do outro. Oferecendo elogios e fazendo a engrenagem funcionar. Repetindo e repetindo não só os ciclos mas também os padrões.
Mas há uma escolha. Podemos reconhecer o vermelho que nos hipnotiza, as promessas de sucesso que nos amarram aos trilhos da rotina. Podemos, talvez, aprender a criar nossos próprios sapatos tortos, simples, imperfeitos, mas verdadeiramente nossos. Criar não para fugir, mas para existir de outro modo.
Porque o poder de criar é, antes de tudo, o poder de se libertar da dança que não escolhemos.
Tábata Yokomiso
Ref Literárias
Mulheres que correm com os lobos — Clarissa Pinkola Estés
